“Pode pegar, se eu joguei fora é porque não me serve mais. São os sapos que se transformam em príncipes, não os cachorros. E em terra de leoa meu bem, cachorra não tem vez.”
“Eu sei. Tenho me tornado uma pessoa introspectiva para meus melhores amigos. Eu sempre fui tão prestativa, sempre sensata, procurando sempre dar conselhos baseada na razão, naquilo que é certo, justo e etcétera. E deve ser por isso, por essa minha prestação de conselhos a qualquer hora, a qualquer custo, sem demora, que eu mal posso me calar que já começam a criticar. Mas… É por você que eu tenho me fechado, que não tenho mais pensado alto – como antes – quando vivia pelos cantos falando com meus botões. Todo mundo precisa de um tempo pra si. E eu preciso do meu agora. Eu sei que tem pessoas me olhando torto, me achando louca, ou inventora de histórias – de amor, principalmente – e que eu não passo de uma menina carente que precisa viver. Eu sei que tem gente que desacredita, que não confia mais em mim, que eu não posso mais contar segredos. E é por isso que eu vivo pra dentro, sempre. Gosto dos amigos mais seletos, ou melhor, de um ou dois a quem posso confiar um pouco dos meus segredos, já que – por essência – não deixo ninguém me conhecer inteira, esse todo eu que me faz complexa demais pra qualquer um que não goste de ler, não goste de ouvir, não goste de entender e aceitar outras filosofias, que não goste de ver por outro ângulo. Mas, vem aqui. Senta aqui do meu lado e me dá a sua mão. Sente? Agora chega mais perto um pouquinho. Encosta sua cabeça aqui no meu peito. Ouve? É, ele ta batendo forte, acelerado. Não, ele não foi sempre assim. Foi depois que você chegou. Lutar pelo amor faz ele ficar assim. É, dói de vez em quando, principalmente quando você me olha assim, com esse olhar profundo como o oceano, querendo me dizer o que se passa aí dentro de você. Não, fique. Por favor. Eu preciso de você. Não faça nenhuma besteira, não se culpe. Sem você aqui ele bate fraco, quase para. Meus olhos ficam um castanho opaco, sem graça. Volta aqui. Eu preciso te dizer. Ele ta assim por causa de você. E, eu não sei mais viver sem essa falta de ar, sem essa dor que parece destruir tudo aqui a cada despedida. Mas, a minha vida seria sem graça sem isso. Eu quero continuar sentindo isso, quero lutar junto com você. Me dá a sua mão. Não quero soltá-la nunca mais. Não me importo se daqui 50 anos sua mão esteja cansada, com rugas. Continuarei segurando-a assim, e beijando-a assim. Eu quero te dar todo esse amor que eu guardo aqui dentro, que foi plantado aqui desde as primeiras poesias que meu avô recitava pra mim e desde a primeira vez que ele cantou a música de ninar que até hoje me dá sono – ai meu Deus! Como eu sou terrivelmente romântica - , olha, não liga para os meus olhos marejados. É que eu já passei por tanta coisa que só em pensar em dividir minha vida com alguém de novo uma espécie de melodia começa a tocar dentro de mim. Ei, olha pra mim. Só me diz que você também quer isso. Eu, definitivamente, não quero me dedicar sozinha de novo. Não quero não me surpreender, não ser amada. Eu sei. Olhares mentem. E eu aprendi isso sozinha, jogando bolinhas de gude com as dores que levo no bolso. Mas, assim como aquele dia que eu te contei que por trás do livre-arbítrio existe aquela força que nos impulsiona a fazer o que deve ser feito. Eu sei que existe algo a mais no meu olhar que te mostra a minha alma e o quanto eu estou sendo sincera. Deixa eu te fazer feliz? Eu posso tirar toda essa dor que colocaram em você sem que você percebesse. Eu sei que posso. Feche os olhos. Consegue ver? Meu avô dizia que quando se ama fica mais fácil enxergar a vida de olhos fechados. Peça de volta à tristeza os discos de dance music que ela tirou da sua prateleira. Também peça as suas roupas estampadas que estavam no seu armário antes de ela chegar. Olhe pra esses olhos castanhos aqui – que perto dos seus ficam tão sem graça. Dá pra enxergar a vida por eles? Por esses olhos de quem te ama? Eu amo seu sorriso. E eu acho que eu encaixo perfeitamente no seu abraço. Quer ver?”
“Hoje sai mais cedo da escola. Fui liberada e então não perdi tempo, peguei minhas coisas e fui embora. Descendo a rua do colégio, enxerguei uma árvore e lembrei dos dias em que subia nela para me dar um susto. Continuei a descer. Com o fone no ouvido passei por um muro e nele havia um coração pixado. Eu sabia que tinha sido você. O encarei por mais ou menos cinco minutos e voltei a descer aquele gigantesco morro. Depois de algumas músicas serem tocadas tirei o fone e olhei para trás, ouvi alguém me chamando. Mas não tinha ninguém. Mais uma vez fiquei cinco minutos encarando o vento. Depois disso, peguei o fone e quando o coloquei estava tocando sua música favorita. Eu fechei meus olhos, senti minhas pernas bambas. Comecei a ver tudo em volta girando. Sim, era nostalgia. Eu sabia que era, mas não podia ficar ali. Continuei a andar e depois de três passos senti um perfume nada estranho. Era seu. Era identico ao seu. Que raiva, não podia ser. O dia estava me levando ao passado. Cansei de ouvir aquelas músicas e abri minha mochila para guardar o celular. Como eu filmes, passei por diversas pessoas e uma em especial derrubou minha mochila. Todos os livros se abriram em meio a calçada e ninguém me ajudou. Pensei que se você estivesse ali, estaria rindo de mim. Peguei tudo com pressa e ao colocar o último caderno dentro da mochila, um papel caiu de dentro dele. Eu não sabia do que era, realmente não estava me recordando daquele grande e amassado papel. Pensei que fosse mais uma lista ridícula de física, mas algo em mim me fez abri-lo. Errei, não era nada em respeito a escola. Era a sua caligrafia. Os seus erros e suas gírias. Tinha sido você o autor de cada letra ali escrita. Eu olhei para cima, vi duas gotas vindo em direção a mim, olhei para os lados e nenhuma pessoa estava ali. A rua estava deserta. Eu sentei ali mesmo, e comecei a ler toda aquela carta. Com dificuldade de acabar de ler em meio a tantas emoções, eu parei. Recomecei a ler mais ou menos umas cinco vezes. Ali estava tudo o que eu menos podia lembrar. Coisas que até eu mesmo já tinha esquecido. Momentos que eu não lembrava de ter existindo. Mas forcei a memória e a unica coisa que ocorreu foi de minhas lágrimas caírem por todo o meu rosto. A chuva estava forte, não dava para perceber que eu chorava absurdamente. Depois de ler todo aquele papel, percebi que a muito tempo eu andava me enganando. Afinal, eu ainda te amo demais. “”
“O carteiro bateu em minha porta, e com ele veio uma caixa. Grande por sinal. Não sabia exatamente o que era. Mas queria saber o mais rápido possível. Era para mim, sem remetente. Não sei porque, mas eu aceitei. Assinei tudo o que eu deveria assinar, e fechei a porta. Estava leve, achei que fosse algum tipo de brincadeira. Mesmo assim, sentei em minha cama e fui rasgando o mais rápido possível aquele tal embrulho. A abri, e dentro havia um simples bilhete dizendo: Entre aqui, e mande-a devolver para mim. Passagem de avião está cara demais. - Sorri. E sim, era sua.”
“Me leva pra casa? Qualquer uma, em qualquer rua, quem sabe até pra tua. Me leva daqui… Me ajuda a fugir.”